O que a agenda de Eduardo Bolsonaro revela sobre as eleições no Brasil

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por Alice Maciel

Qual a influência da ultradireita dos Estados Unidos, liderada por Donald Trump, no Brasil de Jair Bolsonaro? Há cerca de três meses, eu, a editora executiva da Pública Natalia Viana e o jornalista Ken Silverstein estamos investigando a aliança entre o bolsonarismo e o trumpismo. Colocamos uma lupa na agenda de Eduardo Bolsonaro, que virou uma espécie de "embaixador informal" da família junto à extrema-direita americana, e descobrimos que, nos últimos cinco anos, ele participou de ao menos 77 encontros e eventos com representantes e lideranças da ala política conservadora dos EUA. 

As investidas do clã Bolsonaro para se aproximar do trumpismo se iniciaram ainda em 2017, quando Carlos, Flávio, Eduardo e Jair, já de olho no Palácio do Planalto, viajaram aos EUA para dar palestras, entrevistas e se reunir com investidores de lá. Um dos principais articuladores desse tour foi o executivo financeiro Gerald Brant, que atua nos bastidores e é o maior intermediário entre a direita norte-americana e a brasileira, conforme nos disseram várias fontes.

A aliança entre o bolsonarismo e o trumpismo, fortalecida nos últimos quatro anos, permitiu um intercâmbio de estratégias de comunicação e narrativas mentirosas, como, por exemplo, a do "vírus chinês" – em referência à Covid–19 – e a da fraude nas eleições, adotada também nos dois países. Mostramos na Agência Pública, por exemplo, que houve uma ação coordenada no Brasil para apoiar o golpe nos EUA em 2021. Da mesma forma, no dia seguinte das votações aqui, o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, e o porta-voz do Projeto Veritas, Matthew Tyrmand, já começaram a levantar suspeitas sobre as eleições brasileiras. 

Quando o Capitólio foi invadido, em 6 de janeiro de 2021, Eduardo Bolsonaro estava na capital americana, Washington. Revelamos que, oito meses depois, uma comitiva de 16 americanos veio ao Brasil e testemunhou as ameaças golpistas de Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro de 2021. Parte desse grupo se reuniu com o presidente em Brasília. 

No dia seguinte às manifestações, eles ainda jantaram com Eduardo Bolsonaro no Copacabana Palace. Estavam presentes, além do senador republicano Mike Lee, doadores de campanha e captadores de recursos de políticos republicanos. A recepção no luxuoso hotel foi organizada pelo parceiro de Eduardo no think tank Instituto Conservador Liberal, Sérgio Sant'Ana, e pelo sócio de Donald Trump Jr, Sergio Gor. 

Eduardo frequentemente posta fotos dos seus encontros com os conservadores americanos, mas nos chamou a atenção que ele tenha mantido essas agendas —  tanto em Brasília, como no Rio de Janeiro — longe dos holofotes. Da mesma forma, é um mistério a sua passagem por Washington exatamente durante o ataque ao Capitólio.  

Em 2019, Eduardo Bolsonaro também importou para o Brasil o modelo de Congressos Conservadores dos EUA, os CPACs, que ajudaram a propagar a ideologia bolsonarista e a fortalecer a militância em favor de Jair Bolsonaro. Muitos dos palestrantes assíduos desses eventos tiveram votação expressiva no último domingo, como Nikolas Ferreira, Ricardo Salles e Carla Zambelli, para citar alguns exemplos.

Pelo menos quatro desses encontros, que são promovidos pelo think tank de Eduardo, foram patrocinados pela Gettr. A rede social é comandada pelo ex-assessor de Donald Trump, Jason Miller, que manifestou apoio ao presidente no último domingo. 

Acreditamos que muito do que estamos assistindo hoje no nosso país tem a digital da turma de Donald Trump. Independentemente do resultado das eleições presidenciais em 30 de outubro, Eduardo Bolsonaro, que já foi reeleito deputado federal, continuará atuando para fortalecer o conservadorismo no Brasil. Por isso, continuaremos de olho nessas alianças e parcerias, apesar dos ataques de alguns amigos do clã Bolsonaro nos EUA ao nosso trabalho.

 
Alice Maciel é repórter da Agência Pública